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EducaçãoNossas crianças

SEJA UM “FAZEDOR”

Vamos lá! Não tenho e nunca tive nada contra comprar brinquedos, não mesmo. A questão é o consumo desenfreado, o quanto contribuímos para o aumento de plásticos no planeta (que irá demorar uma eternidade para se decompor), o quanto enriquecemos grandes indústrias que visam apenas o próprio crescimento ao invés de fortalecermos os pequenos produtores de brinquedos artesanais e educativos. E principalmente nos questionarmos, porque compramos tanto.

Já parou para pensar o que te motiva a dar brinquedos para sua criança?
Muitas vezes o fazemos por culpa. Culpa por não darmos algo muito mais precioso que um simples brinquedo feito em série.

Atenção.

Em muitas ocasiões que as crianças ficam expostas a publicidade, principalmente a televisiva, que bombardeia suas cabecinhas vendendo não o brinquedo em si, mas sim a sensação de pertencimento ao adquirir aquela boneca, carrinho, herói, ou seja lá o que for, elas estão querendo apenas fazer parte de algo, se sentirem acolhidas , amadas. E nada melhor que um pouco de atenção ao invés daquele brinquedo que é sensação do momento.

Não estou dizendo que não temos que comprar, mas sim que podemos em muitas vezes suprir o desejo escondido por trás da vontade de ter tal brinquedo.

Para me fazer entender melhor, vou dar um exemplo que aconteceu comigo. Meu filho, o Thiagão, tinha na época uns 5 anos e enfiou na cabeça que queria um escudo do Capitão América, afinal os Vingadores estavam com tudo na mídia. Filme pra cá, lançamento de bonecos pra lá, álbuns e acessórios explodindo em todos os meios de comunicação, como pipoca estourando na panela (porque prefiro a de panela do que a de micro-ondas). Sendo assim, cedi aos pedidos insistentes do meu pequeno e comprei o “incrível escudo de PLÁSTICO” do Capitão, com o qual, tenho que admitir, ele se divertiu a beça o lançando para lá e para cá no condomínio onde mora com a mãe. Até o arremessar longe demais e o famoso escudo do Primeiro Vingador acabar estacionado no telhado do vizinho, uma empresa abandonada por sinal.

O Thi chorou, esperneou e queria que eu desse uma de herói, pulasse o muro, escalasse uma parede e andasse por telhas quebradiças para resgatar o bendito brinquedo. Claro, como não tenho o soro do supersoldado correndo em minhas veias como Steve Rogers, me neguei veementemente a me arriscar em tal empreitada. O que gerou mais esperneio, choro e um bico de tamanduá do tamanho do mundo. Desolado, sem saber o que fazer, estava prestes a gastar outra pequena fortuna por mais um mero disco de plástico, quando parei para refletir e tive uma ideia simples. Sentei no chão ao lado do meu filho, cruzei as pernas e lhe fiz uma proposta:

— Cara, o que acha de nós mesmo criarmos um escudo do Capitão?

A princípio o bico se manteve, olhar grudado no chão. Eu precisava argumentar mais.

— Vamos à papelaria, compramos cartolina, papel colorido (azul, vermelho e branco — as cores do escudo), cola, elástico e pegamos uma caixa de papelão no supermercado. Juro que vamos fazer um escudo tão legal quanto o que tinha.

Os olhos dele desgrudaram do chão e aos poucos encontraram os meus. Devagar, o bico foi se desfazendo e enxerguei uma centelha de esperança naqueles olhinhos que desejavam bem mais que um mero escudo.

— Tem certeza que a gente consegue fazer pai?
— Que conseguimos fazer sim. Agora como vai ficar é que é a surpresa. O que acha?
— Então levanta pai, vamos logo!

E a centelha havia se transformado em um brilho alegre só encontrado nos olhares vivos das crianças.

Naquele dia, compramos todo o material, voltamos, sentamos no chão e iniciamos a criação do melhor escudo do Capitão América que já existiu nesse mundo. Pelo menos para nós dois. Sim, para nós dois. Enquanto recortávamos, colávamos e dávamos forma a nossa obra prima, eu pude me permitir me sentir criança de novo e passar um tempo de qualidade com o meu filho como a muito não fazia.

Todas as culpas se dissiparam como neblina levada pela brisa da manhã e revelaram um lindo dia de sol, onde eu não precisava compensar a atenção não dada ao meu filho, com produtos que apenas iriam entulhar mais o planeta e enriquecer alguém muito esperto que se valia das fraquezas humanas para ganhar a vida.

Culpa dos fabricantes? Não, não mesmo.

Culpa de cada um de nós que nos acomodamos no piloto automático das tarefas incessantes do dia a dia e esquecemos que o prazer reside nas coisas simples, na alegria de fazer e brincar, se sentir vivo ou desfrutar da companhia do melhor amigo ou amiga que você já teve.

Então, que tal hoje quando chegar em casa, esquecer um pouco a TV, o celular, as contas, os problemas e sentar no chão e brincar com sua criança?

Tenho certeza que fará um bem enorme. Não só para ele. Para você também.

Lembre que adultos, são apenas crianças em corpos gigantes. Pelo menos será assim enquanto estiver com seu filho no mundo do faz de conta.

Viva o momento, viva o AGORA!

Abraços!