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Nossas crianças

O QUE VOCÊ QUER QUANDO CRESCER? “O HOMEM ARANHA, PAI”.

O Sol iluminava o sábado daquela tarde de fim de inverno, onde flores brotavam em explosões multicoloridas próximas a FNAC Pinheiros em São Paulo, enquanto eu e o Thi, meu menino, caminhávamos para dentro da loja obstinados a assistir um workshop sobre o “Batman Day”, evento nerd que comemorava os 77 anos do velho Homem Morcego, o qual eu tentava imaginar vestido em seu uniforme de vigilante, com uma barba rala e branca de baixo da máscara, uma bat-bengala e provavelmente muitas hérnias de disco conquistadas em suas empreitadas contra as vilanias de Gothan City.

Entramos atrasados, o evento já ia a todo vapor, cadeiras lotadas e bat-maníacos amontoados por todos os lados se exprimiam para ouvir blogueiros, editores e especialistas (sim, eu disse especialistas) do universo do Paladino da Justiça. Graças ao seu superpoder de “ser criança”, Thi perfilou as cadeiras e arranjou um canto próximo a uma pilastra, para qual o segui como se ele fosse o Batman e eu o Robin. Ali ficamos por algum tempo ouvindo as explicações acaloradas sobre o passado, presente e futuro do Homem Morcego, enquanto eu admirava os olhos do meu filho brilharem e exibirem a centelha viva da imaginação, que se materializava naquele dia especial, feito para alguém que se sequer existia de verdade.

E isto foi maravilhoso. E mágico.

Depois que o evento terminou, nos distraímos, rodando pela parte de revistas e livros da loja. Ao vê-lo ali, examinando com atenção os gibis, deixei que meus anseios tomassem conta de mim, como o calor do fogo que a certa distância pode aquecer, mas ao se chegar perto demais acaba por queimar, e fiz a famigerada pergunta clichê que todos nós pais um dia ou outro fizemos ou faremos aos nossos filhos.

— Thi, o que você quer ser quando crescer?

Ele não respondeu na mesma hora. Por um instante, até achei que fosse me ignorar, pois continuou andando pelas prateleiras, talvez em busca da resposta. Pegou uma HQ, olhou a capa e me mostrou.

— O Homem Aranha, pai. — ele respondeu apontando para capa, onde o intrépido aracnídeo, amigo da vizinhança se balançava entre teias, prédios e nuvens de algodão.

Ali, percebi o descabimento da minha pergunta. Tinha acabado de despejar sobre um menino de 6 anos, um questionamento carregado de anseios e projeções com os quais criança alguma deve se preocupar.

Crianças devem ser apenas crianças. E isto basta enquanto as forem.

Porque teimamos em querer definir e traçar planos futuros para nossos pequenos, projetando sobre eles o que achamos melhor que eles sejam? Porque depositamos nossa ansiedade em relação ao que virá, sobre criaturinhas que só tem em mente se divertir no agora?

Porque tememos o futuro e esquecemos de viver o presente.

Estamos condicionados a repetir os questionamentos, métodos e padrões usados por nossos pais. Mas não fique chateado. Não mesmo, sério. Somos assim porque só aprendemos desta forma. Nos empacotamos como seres humanos produzidos em série, prontos e iguais com um código de barras colado no peito, feitos para repetirmos sempre os mesmos padrões. Vivemos hipnotizados pela correria do dia a dia da Grande Matrix e esquecemos que podemos questionar, discordar, mudar nossa forma de pensar e fazer diferente.

E o melhor. Podemos fazer tudo com muito amor!

Quando meu filho respondeu que queria ser um super-herói, eu percebi a riqueza que são as crianças e sua imaginação sem limites, sem muros ou medos para travá-los. E que se forem criados para serem verdadeiramente livres, que seres humanos incríveis se tornarão.

Por isso, não vale apena nos preocuparmos com o que eles querem ser quando crescerem e nem acho que devemos pressioná-los com tais questionamentos.

Achei lindo meu moleque querer ser o Aranha, o amigo da vizinhança. Por quê?

Não porque é um herói ou tem superpoderes. Não.

Mas sim, porque isso o faz feliz AGORA. É o que o faz completo. E o mais importante.

O que o faz viver sua infância em sua plenitude e ser exatamente o que ele tem que ser neste momento.

Simples e puramente… uma CRIANÇA.