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A HORA DO DESPERTAR

Era uma vez um menino que achou que para se defender do mundo, devia agradar a todos, fingir ser quem não era e esconder o que sentia. Um menino que se escondia atrás de não verdades criadas pela sua própria cabeça, pois dentro do seu mundo de faz de conta estava protegido. Proteção que desejou ter de um pai que nunca teve e que sempre buscou em outras pessoas. Era uma vez um menino que criou seu próprio mundo fantástico e achou que dentro dele sempre estaria seguro.

Um ledo engano, pois não fazia ideia de como esse mundo ruiria como um castelo de cartas diante de uma lufada de vento.

Esse menino cresceu achando que deveria pautar sua vida em não verdades, que estava protegido por uma força invisível, um anjo da guarda dos desavisados que sempre o ajudaria no decorrer da vida, desde as tarefas de casa, passar de ano, impedi-lo de tropeçar em um buraco, até decidir seu destino quanto ao seu trabalho e relacionamentos.

Mas como já dito, ele estava redondamente enganado.

O que ele achava ser proteção, na verdade era um círculo de histórias inventadas por ele, que nunca o permitiram se aprofundar e conhecer a si próprio. Um labirinto de espelhos que não refletiam nada além da imagem superficial de tudo que ele não era e nunca quis ser.

Assim, após se formar, arranjou um emprego e não um trabalho, do qual nunca gostou, porque achava que deveria ser igual a todos, pois era assim que todos faziam. Casou sem amor para fugir da responsabilidade de cuidar de si próprio e encarar a vida sozinho e viveu anos abafando o grito dentro do peito, reprimindo sua verdadeira natureza e a vontade de ser quem sempre sonhou: ele mesmo.

Até que houve o primeiro sinal do despertar.

Foi na época que retomou o gosto pela leitura e pelos livros e por uma pequena fresta da alma, a luz de sua criança, seus desejos e sonhos que até então estavam encaixotados em um canto escuro dentro de si, se espicharam preguiçosamente para a luz da realidade. Ali, o menino retomava o sonho de ser um escritor, de viver de histórias ao invés de inventar histórias para continuar vivendo.

Pouco depois, veio o segundo despertar.

O nascimento de seu filho. Ao admirar aqueles olhos verdes como oceano, soube que apesar do mundo de faz de contra que criou para si, ainda fazer parte de sua essência, o destino se encarregara de trazer por meio daquela criança, mais uma brecha em sua alma, que deixou escapar mais um tanto de sonhos e luzes que tinha para doar ao mundo.

Por um bom tempo, ainda sofreu, se manteve em uma vida que sabia não ser sua, viveu para agradar os outros, função que desempenhou sem sucesso. E se anulou como pessoa, tentando conter seus sonhos e desejos presos no cárcere que criou para sua alma, que teimavam em cutucar seu coração e tentar escapar dentre as frestas dos dedos que apertavam seu peito.

Então chegou o momento do terceiro despertar.

E este foi o mais dolorido, mas também o mais libertador. O menino, agora já um homem, não tinha mais como voltar atrás e negar tudo que aprendera e passara até ali. Foi quando a vida de plástico que havia criado para si começou a não fazer mais sentido. O menino precisava buscar novos horizontes, beber de novas fontes e deixar para trás o mundo de não verdades, sair do raso para mergulhar fundo dentro do mar de suas emoções e ir em busca do seu “Eu Perdido”.

Colocou um fim no casamento, tremeu ao conversar com o filho e explicar que sempre estaria ao seu lado. Se surpreendeu com a maturidade dele, uma criança que sabia diferente do menino que nunca teve um pai, que nunca seria abandonado. Sofreu ao deixar para trás o que já não lhe servia mais, deixando a mãe de seu filho livre para também viver, ser feliz e ser quem deveria ser. Sofreu ao ter de voltar alguns passos e recomeçar do zero. Mas era o caminho a ser trilhado e já não havia mais volta e nem ele queria voltar.

Foi quando teve contato com um novo mundo. Um Mundo de Despertos, onde não cabia mais sua vida de faz de conta, de não verdades. Um mundo especial, com pessoas especiais que não cansam de lhe ensinar coisas novas, uma nova maneira de ser. Na verdade, a maneira real de SER. E sim, o menino ainda sofre com esse processo de transformação, a saída do casulo, pois agora vive em um mundo onde não cabem mais as histórias que sempre criou para se proteger. Era hora de baixar o escudo, sentir o calor do sol no rosto e também os pingos fortes e cortantes da chuva. Era hora de encarar de vez a responsabilidade de tomar as rédeas do cavalo sem rumo que era sua vida.

O contato com essa luz e clareza do jeito de ser do “Povo Desperto”, ainda o assusta e o faz entrar em conflito, mas ele sabe que não há mais volta. Não deste ponto. Ele tem medo, mas mesmo assim resolveu seguir adiante.

Por isso, a cada dia, ele aprende mais, se torna mais completo, verdadeiro e mais próximo de quem sempre deveria ter sido.

A esta altura, a brecha em sua alma se tornou uma bela janela com uma boa varanda. Mas se engana quem pensa que isso termina por aí. Ainda há muito trabalho a ser feito, muito terreno fértil para ser plantado, muitas curas a serem realizadas. E tudo isso será feito no seu devido tempo.

Até que a janela na alma do menino se transforme em um imenso portal que deixe toda sua luz sair e resplandecer seu amor sobre os outros que estiverem ao seu redor.